Pular para o conteúdo principal

Como dizia Khalil Gibran, "a simplicidade é o último degrau da sabedoria."



Em meu livro Uma Ponte Para Você (Multifoco 2014) eu falo sobre como alguns acontecimentos conseguiram alterar rotas, mudar o meu modo de ver a vida e o meu jeito de me posicionar diante dela.O desejo de carregar objetos que sustentavam a minha identidade em algumas viagens nem sempre confirmaram a real necessidade desse gesto. Eu queria levar o mundo em minhas malas para chegar nos lugares com algo nas mãos esquecendo que devemos viajar de mãos vazias para acolher o novo.
Como dizia Khalil Gibran, "a simplicidade é o último degrau da sabedoria."

Minha casa na Itália parecia um Museu da Memória. Quando um projeto terminava eu trazia mil lembranças que ficavam decorando o ambiente por um tempo. Quando eu devia partir novamente cobria tudo com lençóis e lá ia eu de novo para outro país, com outra língua, clima, cultura. Um exercício constante de recomeços que serviram para admirar a leveza. 

Ainda estou no processo de aprendizado. Continuo tentando viajar leve e desejo fazer o Caminho de Santiago. Enquanto isso não chega, vamos ler um capítulo do meu livro? Afinal, esse exercício não é simples. O fato de tentar já é grandioso.

Em 1966 a guerra era a protagonista social. Desci no Burundi com uma mochila vermelha própria para praticar montanhismo e uma mala de rodinhas grande. A saga havia começado no aeroporto de Torino (Itália). Munida de uma carta do governo na qual declarava que eu viajava para missão humanitária me apresentei com sessenta quilos a mais do permitido. O funcionário da companhia aérea tentou me ajudar. De toda maneira, era um desafio carregar todo aquele peso quando uma pessoa tem 49 quilos (era o meu peso naquele tempo). O funcionário me conduziu para outra sala e distribuiu os pacotes de café, macarrão, a moka, que é aquela a máquina de café que usamos na Itália e tantas outras latinhas e pacotinhos de comida. Quem me visse diria que eu estava indo para uma
ilha deserta. Depois de tudo arrumado, com a ajuda do rapaz, coloquei a mochila nas costas e lá fui eu. Ao subir na escada do avião perdi o equilíbrio. O senhor que estava atrás de mim tentou me ajudar e ao perceber o peso da mochila começou a dizer bem alto: “Questa donna è un pericolo!” (essa mulher é um perigo!). O comissário prontamente desceu as escadas para me ajudar e ao segurar a minha mochila disse-me algo parecido como misericórdia em português. Ao chegar ao Burundi não consegui mais posicionara mochila pesada nas costas. Os comissários de bordo me ajudaram a descê-la do avião e o trajeto até à imigração foi na base do sufoco mesmo. Eu arrastava a mochila e as malas que eram entregues ali mesmo no campo de terra onde o avião pousou. Diante dos policiais burundeses comecei a tremer de medo. Num país em guerra a comida possui um valor inestimável.“ Bonjour, madame!”. Fingindo não entender o francês respondi em italiano: Buongiorno! Eu já havia usado o idioma francês no Burkina Faso mas decidi, num gesto instintivo, fingir que não entendia nada do que me falavam. Os homens pediam para eu abri a curiosa mala pesada. E eu comentava algo sobre o calor que fazia ali. Eles se olharam e repetiram o pedido. Mais uma vez me fiz de desentendida. Como a fila estava longa um deles disse: “Ela não entende nada, deixe-a ir!”. E assim escapei do controle. Os alimentos que levei com tanto sacrifício foram todos roubados da casa do projeto. Inclusive a minha linda mochila vermelha. Tudo em vão! O saldo desse esforço foi um problema na coluna que se reflete ainda hoje. O que fazer?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A diferença entre esperança e esperançar segundo Paulo Freire

Bom dia com Mario Sergio Cortella e Paulo Freire: “Como insistia o inesquecível Paulo Freire, não se pode confundir esperança do verbo esperançar com esperança do verbo esperar. Aliás, uma das coisas mais perniciosas que temos nesse momento é o apodrecimento da esperança; em várias situações as pessoas acham que não tem mais jeito, que não tem alternativa, que a vida é assim mesmo… Violência? O que posso fazer? Espero que termine… Desemprego? O que posso fazer? Espero que resolvam… Fome? O que posso fazer? Espero que impeçam… Corrupção? O que posso fazer? Espero que liquidem… Isso não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo. E, se há algo que Paulo Freire fez o tempo todo, foi incendiar a nossa urgência de esperanças

Marcos Caruso e Nivea Oliveira

Hoje a aula foi com ele. Caruso nos falou sobre o respeito que devemos ter enquanto profissionais. A arte exige de nós uma disciplina e constância. Uma ponte para a arte, para o ofício de criação.  Bom final de semana leitor!

Encontro vitalizante

Às vezes não precisamos de grandes mudanças em nossas vidas de imediato.  Pequenos ajustes podem alterar rotas desde que estejamos disponíveis a nos melhorarmos. Aqui estou com a escritora Heloisa Freitas, autora de As Marcas do Sucesso e Verônica que está buscando a realização de seu sonho na carreira de Veterinária. A troca de energia positiva e foco no melhor resultado possível conduziu esse momento. O que vem após as tentativas de mudança é o que nos impulsiona. Ótimo final de semana leitores!